O Sistema Único de Saúde (SUS) passou a ofertar teleatendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. O anúncio foi realizado pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, no dia 3 de março de 2026, durante simulação de teleatendimento na unidade do Hospital Sírio-Libanês em São Paulo. A expectativa inicial é atender 600 pacientes por mês por meio de uma parceria com o hospital.
"Estamos introduzindo o teleatendimento porque percebemos que, dificilmente, a pessoa com problemas relacionados a jogos de apostas procura um serviço de saúde presencialmente. Muitas vezes, há dificuldade de admitir o problema, vergonha e ainda muita estigmatização. Por isso, estamos criando instrumentos para que famílias e amigos possam apoiar quem enfrenta essa situação, permitindo contato direto com o Ministério da Saúde sem a necessidade de ir até uma unidade", destacou o ministro Padilha.
COMO FUNCIONA O SERVIÇO
O acesso ao teleatendimento é feito pelo aplicativo Meu SUS Digital, disponível gratuitamente para Android, iOS e na versão web. O usuário faz login com a conta gov.br, acessa "Miniapps" na página inicial e seleciona "Problemas com jogos de apostas?".
A pessoa terá acesso a um autoteste baseado em evidências científicas, validado no Brasil por especialistas, com perguntas que ajudam a identificar sinais de risco e orientar o próximo passo. Se o resultado indicar risco moderado ou elevado, o encaminhamento para o teleatendimento é automático. Nos casos de menor risco, o aplicativo orienta a procurar a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que inclui Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Unidades Básicas de Saúde (UBS).
As consultas são realizadas por vídeo, duram em média 45 minutos e fazem parte de ciclos estruturados de cuidado, que podem incluir até 13 consultas por paciente — seja em grupo com sua rede de apoio ou individualmente. O atendimento é gratuito e confidencial. A equipe é multiprofissional, formada por psicólogos e terapeutas ocupacionais, com apoio de médico psiquiatra quando necessário, além de articulação com assistência social e medicina de família.
INVESTIMENTO E CONTEXTO
O investimento é de R$ 2,5 milhões do Ministério da Saúde, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS). O serviço é destinado a pessoas com 18 anos ou mais, além de familiares e rede de apoio. O cadastro pode ser feito 24 horas por dia, em ambiente seguro, seguindo as normas da LGPD.
A iniciativa integra uma estratégia nacional que inclui: a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, lançada pelo Ministério da Fazenda, para excluir e bloquear o acesso a todos os sites de apostas autorizados; o Observatório Saúde Brasil de Apostas, canal permanente de troca de dados entre Saúde e Fazenda; a Linha de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas; e o Guia de Cuidado publicado pelo ministério.
NÚMEROS QUE PREOCUPAM
Em 2025, o SUS ofertou 6.157 atendimentos presenciais relacionados a jogos e apostas. A procura espontânea ainda é baixa, muitas vezes por vergonha ou dificuldade de reconhecer o problema — justamente o que motivou a criação do teleatendimento.
O investimento do Ministério da Saúde em saúde mental cresceu 70% de 2022 a 2025, passando de R$ 1,7 bilhão para R$ 2,9 bilhões. O SUS conta com 6.272 pontos de atenção em saúde mental, incluindo 3 mil CAPS. De 2023 a 2025, foram habilitadas 653 novas unidades da RAPS, um aumento de 10% na cobertura nacional. A Ouvidoria do SUS (telefone 136) também está treinada para orientações sobre o tema.
Fontes: BNL Data (https://bnldata.com.br/ministerio-da-saude-inicia-teleatendimento-gratuito-pelo-sus-para-quem-enfrenta-problemas-com-jogos-e-apostas/) | Ministério da Saúde (https://www.gov.br/saude)
A iniciativa do Ministério da Saúde de oferecer teleatendimento pelo SUS para pessoas com problemas relacionados a apostas e jogos representa um reconhecimento institucional da dimensão de saúde pública do mercado de iGaming. O programa, que utiliza a infraestrutura já existente do Telessaúde Brasil, capacita profissionais de saúde mental para identificar e tratar casos de jogo problemático.
A decisão de integrar o atendimento a jogadores problemáticos à rede pública de saúde reflete dados epidemiológicos preocupantes. Estimativas baseadas em pesquisas internacionais e adaptadas à realidade brasileira sugerem que entre 1% e 3% da população adulta pode apresentar algum grau de comportamento de jogo problemático, o que representaria entre 1,5 e 4,5 milhões de brasileiros. Com a expansão do mercado regulado e a maior acessibilidade das plataformas online, especialistas preveem que a demanda por serviços de tratamento tende a crescer nos próximos anos.
O modelo de teleatendimento oferece vantagens significativas em termos de alcance e acessibilidade, especialmente para populações em municípios menores que não dispõem de profissionais especializados em dependência comportamental. A possibilidade de atendimento remoto também reduz barreiras de estigma, já que muitos jogadores problemáticos evitam buscar ajuda presencial por vergonha ou receio de julgamento social.
A articulação entre o programa do Ministério da Saúde e as obrigações de jogo responsável das operadoras licenciadas cria um ecossistema de proteção mais completo. As plataformas de apostas são obrigadas a disponibilizar informações sobre o serviço de teleatendimento do SUS em suas interfaces, facilitando o acesso dos jogadores que reconhecem a necessidade de ajuda profissional.