O vice-presidente Geraldo Alckmin sinalizou que o governo federal deve anunciar novas restrições às plataformas de apostas online no Brasil. A declaração foi feita durante reunião em Brasília com lideranças do setor de varejo, que vem defendendo publicamente que a expansão das bets está canibalizando o consumo nas lojas físicas e digitais do país.
O que Alckmin disse
"Não havia regulação, tudo era clandestino. Então foi regulamentado, foram aplicados impostos, e haverá um novo aperto para prevenir esse jogo móvel, que é muito preocupante e leva ao vício em jogos de azar", afirmou o vice-presidente, reconhecendo explicitamente a preocupação com a dependência gerada pelas plataformas de apostas mobile.
A declaração é relevante por vir de um dos principais integrantes do governo Lula, que até recentemente tinha adotado postura mais favorável ao mercado regulado — celebrando a arrecadação de R$ 1,5 bilhão em impostos só em janeiro de 2026. A mudança de tom indica que a pressão do varejo e das entidades de saúde está ganhando espaço nos corredores do Planalto.
A ofensiva do varejo
A iniciativa que motivou a reunião com Alckmin foi articulada pela Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), que em 2025 lançou campanha sustentando que o crescimento das apostas online estaria desviando renda das famílias brasileiras para as plataformas, reduzindo o poder de compra no varejo.
O argumento ganhou tração política ao longo dos últimos meses, especialmente entre parlamentares de estados com alta penetração de bets e indicadores econômicos pressionados. A narrativa — "o brasileiro está apostando em vez de comprar" — é politicamente palatável mesmo sem evidências robustas.
A réplica da indústria
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) não ficou quieta. A entidade ingressou com ação judicial contra a ABRAS, alegando que as afirmações sobre o impacto das bets no varejo constituem "alegações generalizadas e potencialmente difamatórias que vão além da crítica a agentes individuais e se estendem ao setor como um todo".
Na peça jurídica, a ANJL apresentou dados do IBGE: o setor de varejo cresceu 4,7% em 2024, período em que o mercado de apostas também se expandiu. "Não há elementos objetivos para estabelecer relação causal entre o setor varejista e o mercado regulado de apostas", afirma o documento.
Os dados do próprio Ministério da Fazenda reforçam a argumentação: 53,4% dos apostadores brasileiros gastam até R$ 50 por mês nas plataformas, e o gasto médio mensal foi de R$ 122 em 2025. Os números colocam em perspectiva a narrativa de que as bets estariam sugando quantias expressivas do orçamento das famílias.
O que pode vir de novo
Embora Alckmin não tenha detalhado quais seriam as novas restrições, o mercado especula sobre algumas frentes que já circulam no governo: limites mais rígidos de depósito diário, restrições adicionais à publicidade mobile, ampliação do módulo de impedidos (que já bloqueia beneficiários do Bolsa Família) e possível limite de horas de uso por CPF.
A SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas) não se pronunciou oficialmente sobre o timing das novas medidas, mas fontes do setor indicam que uma portaria com ajustes regulatórios pode ser publicada ainda no segundo trimestre de 2026.
Contexto mais amplo
A sinalização de Alckmin ocorre em paralelo a outras pressões regulatórias: o PL 1172/2026, apresentado pela deputada Tabata Amaral, que propõe banir toda publicidade digital de apostas; e a discussão no Senado sobre proibição de patrocínios esportivos. O mercado regulado, que comemorou seu primeiro aniversário com recordes de arrecadação, entra em 2026 enfrentando o maior ciclo de escrutínio regulatório desde sua criação.
Para as 186 operadoras licenciadas, a mensagem é clara: compliance robusto e postura proativa em jogo responsável deixaram de ser diferenciais competitivos e se tornaram requisitos de sobrevivência num ambiente político cada vez mais hostil.