Uma disputa silenciosa está se formando no mercado financeiro e de apostas brasileiro: XP Investimentos, B3 e casas de apostas licenciadas competem pelo controle do nascente mercado de previsões no Brasil. A reportagem do InvestNews revela que as três forças têm visões distintas sobre como esse mercado deveria ser regulado e operado no país.
As três frentes
A XP Investimentos, que fechou parceria com a americana Kalshi, quer oferecer mercados preditivos como produto financeiro para seus clientes. A proposta é que investidores possam comprar contratos sobre o resultado de eventos — desde decisões do Copom até resultados esportivos — dentro da própria plataforma da corretora, tratando a atividade como investimento, não como aposta.
A B3, bolsa de valores brasileira, já oferece minicontratos futuros e opções, e estuda a viabilidade de criar contratos de eventos em sua plataforma. A bolsa teria a vantagem de infraestrutura regulatória e de clearing já estabelecida, além do selo de legitimidade que o mercado de capitais confere.
As casas de apostas, por sua vez, veem o mercado preditivo como uma extensão natural de sua atividade e argumentam que, se regulado como apostas, as operadoras licenciadas pela SPA deveriam ter preferência ou exclusividade na oferta.
O vácuo regulatório
O Brasil não possui regulação específica para mercados preditivos. A Lei 14.790/2023 define apostas de quota fixa de forma que pode ou não abranger mercados preditivos, dependendo da interpretação. A legislação de valores mobiliários também não contempla especificamente contratos de eventos. Esse vácuo cria incerteza jurídica e trava investimentos.
A SPA, a CVM e o Banco Central realizaram reuniões conjuntas para discutir o enquadramento regulatório, mas até o momento não chegaram a consenso. A expectativa é que o governo apresente uma proposta de regulação específica ainda em 2026, possivelmente inspirada no modelo americano, onde a CFTC criou uma categoria própria para bolsas de contratos de eventos.
O tamanho da oportunidade
O mercado preditivo global movimentou mais de US$ 50 bilhões em 2025, com crescimento exponencial impulsionado pelas eleições americanas e por eventos esportivos. No Brasil, estimativas indicam que o mercado poderia atingir R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões nos primeiros anos de operação regulada, atraindo tanto apostadores habituais quanto investidores que buscam diversificação de portfólio.
Para analistas, o desfecho da disputa regulatória determinará não apenas quem poderá ofertar mercados preditivos no Brasil, mas também o modelo de negócio que prevalecerá — financeiro, gambling ou híbrido. O resultado terá implicações para as estratégias de XP, B3 e operadoras de apostas nos próximos anos.